A pracinha que circundava sua casa estava soturna demais naquela terça. Geralmente sempre havia algum aposentado, alguém vendendo álcool, ou mesmo desconhecidos casais sorrindo ao banco. Da chuva só restara o cheiro, não o de terra, mas o de asfalto molhado. O asfalto molhado exala curiosamente - e esta é uma área que de tão pouco estudada é oculta - um forte cheiro, mas a verdade é que não tem cheiro definível algum, nem de asfalto propriamente dito. Otorrinolaringologista. Vinte e duas letras, meu deus! Qual será o médico que escreverá o primeiro tratado de olfatologia? Ciência inexistente. Cabe, então, aos poetas definirem os cheiros. E olhem aí mais uma função desses médicos da sensibilidade. Pensando bem, poeta bom não é o que cura, mas o que deixa doente. Enfim, era uma terça bem atípica, afinal o dia já tinha começado estranho com o sumiço de seu guarda-chuva, tinha ótima memória e antes de sair de casa naquele dia chuvoso, ainda lembrava com precisão de onde e quando havia deixado seu objeto: no cabide mais alto do armário na noite retrasada. Quando o fortíssimo toró caiu, cerca de quinze minutos antes de sair do trabalho, percebeu que não teria jeito, teria de gastar sua última nota de cinco para comprar um guarda-chuva novo com os ambulantes que a esta altura iam garantindo o mês num falatório que conseguia ser ouvido mesmo com o “chuá” ensurdecedor do temporal pelas ruas. – Sombrinha é cinco, “familião” é dez! – gritavam os proliferados vendedores. Saltando do ônibus, todo ensopado obviamente, pois a sombrinha entortara ainda no caminho até o ponto devido à fraca, porém suficiente ventania, percebera que mesmo vazia à primeira vista, da praça vinha um sôfrego gemido. Esperou um fusca passar à rua dianteira e atravessou, tanto para averiguar como para obrigatoriamente chegar em casa. Era um homem, aparentemente com uns vinte e poucos anos. Trajava uma roupa a la française bem típica de brechós de bom gosto. Sua barba irregular o definiria – com toda certeza com uma boa dose de preconceito que quase sempre realmente traduzia este tipo de jovem – como um bon vivant (aproveitando novamente o francês), muito provavelmente mais um destes rapazes sustentados por pais de certa estabilidade, e isto se confirmaria, pois o homem estava com uma garrafa de um bom vinho que não condizia com as poses comuns de simples trabalhadores. Se o vinho também era francês? Sim, claro. Devia ser um músico ou poeta de bar. O sôfrego gemido, agora mais audível, era na verdade um arrastado choro, daqueles que arranham a garganta, não tão sonoros, mais internos. Este tipo de choro provavelmente é o pior. Aproximou-se e perguntou ao rapaz: - O que há rapaz, por que choras? - o homem deu uma trégua nos soluços e virando lentamente a cabeça perguntou: - O senhor teria um dinheiro para eu comprar mais um vinho? Me submeto até a um péssimo vinho, preciso me embriagar e minhas moedas acabaram. – respondeu: - Meu, caro. Vades para a casa, és jovem e seus pais devem estar muito preocupados e além do mais, já bebeis demais, não acha? – dizer a um bêbado a hora de parar, e, principalmente finalizando a orientação com uma pergunta só aumenta sua sede por álcool, mesmo assim, curiosamente ao início da oração o jovem respondeu com uma concessiva pergunta: - Você acha? – mas logo justificou-se, pois se tratava de ironia – Eu aparento ser mais jovem, senhor. Tenho vinte e seis anos, se estou chorando tenho fortes motivos, sou um homem forte. – interrompeu – Mas afinal, qual é o motivo de seu lamento? sem mais delongas replicou: - É que sou escritor. Como podes ver até pela minha vestimenta , sou um homem culto. O fato é que perdi totalmente minha inspiração. Já não escrevo algo relevante há meses. Nem um curto conto, sequer. Por isso exagerei na bebida. Sempre gostei de beber meu vinho enquanto escrevo. Mas nem ele está me ajudando a destravar. Noutros tempos, minha literatura podia ser medida pelos meus vinhos. Se tomava uma garrafa na semana: A produção ia bem; Com duas: Era sinal mais de quantidade do que qualidade; Se não bebia: A produção ocorria mais lentamente; Agora, se bebia três ou mais, era péssimo sinal: Ou nada se compunha ou ocorria este fenômeno que me encontro, o da escassez total. Entende agora o motivo de meu choro, homem? – Ah, sim, claro. Compreendo, amigo. – que homem lamentável, pensou – Mas sobre o quê, escrevias? – A questão não é sobre o que eu escrevia, e sim, sobre o que vou escrever e se o senhor não me dará uns trocados – aumentou a voz – pode se retirar. Perdoe-me a grosseria, mas não estou nos melhores dias, entende? – Lamento, mas não posso te ajudar nesse sentido, não tenho dinheiro sobrando e além do mais, não gosto de grosserias, ainda mais vindas de um homem que se diz culto, mas que se mostrou um mal-agradecido. – Vá embora, velhaco! Me deixe! – desta vez gritou com rústicas sobrancelhas – Vá embora você. Esta praça é caminho de minha casa, oras. Eu não estava vagueando pelas ruas durante o dia, rapaz. Eu estava trabalhando! – Alors avaler ce Château! – tacando a vazia garrafa do bom vinho na direção dele. Conseguiu desviar numa rápida corrida e a garrafa espatifou-se próximo à videira do jardim vizinho – Ei, jovem! – exclamou já perto da porta de casa e já longe do rapaz, parecendo não guardar rancor da tentativa de agressão – Viu o que fez? Acabou de tacar uma garrafa vazia de um bom vinho sobre a videira. Aí está. Escreva sobre o que entende bem: Escreva sobre vinhos!