quinta-feira, 26 de abril de 2012

Olha o chipe!


Chip da TIM, da Claro, da Vivo e da Oi!!! – frase mais repetida por vendedores nas ruas do Centro do Rio de Janeiro.

Há cena que simbolize melhor a sociedade tecnocrata em que vivemos?
Pensar que chips fossem ser vendidos livremente na rua a qualquer pessoa, de diversas empresas, ou como preferem dizer, operadoras, e a preços baixíssimos há alguns nem tão distantes anos atrás era algo puramente ficcional.
O chip em si, repito, tem um fortíssimo simbolismo dentro da sociedade moderna.
O chip sempre foi visto como uma espécie de processador, um cérebro mecânico do qual dependiam os futuros robôs.
Se fosse retirado o chip, o robô parava de funcionar.
Este robô era o pai dos anos dois mil.
Essa concepção é do meu tempo, da minha infância, afinal, sou um noventísta!
Mas a realidade é distinta, foge dos filmes e desenhos animados das décadas passadas.
Essa democratização tecnológica em nada tem haver com utopia.
Nos comunicamos mais, isso é evidente, as fronteiras soçobraram muito, porém perdemos um dos mais saborosos prazeres desta vida social...
Vai saber o que era esperar uma carta de amor;
Vai saber o que era conversar sem pressa alguma, sem um cronômetro ao lado da orelha;
Vai saber o que era reconhecer a pessoa só por sua caligrafia, e não por um dado salvo;
Vai saber o que era, durante uma viagem, desenhar mentalmente o rosto de uma pessoa da qual só conhecíamos pela voz, letra, ou no máximo por uma foto fosca e sem cores;
Vai saber o que era ver e ouvir o mundo com olhos e ouvidos pacientes...


terça-feira, 17 de abril de 2012

Enfoscamento

Um olhar inteligente
Um olhar inteligente em meio ao bando de pernas que não sabem de onde vieram e muito menos para onde vão
Esse olhar apequenou-se na multidão transeunte
E um cheiro...
Um forte cheiro de preconceito
Não era um cheiro bom ou ruim, era simplesmente um cheiro natural
Como o de sal de praia ou de úmida terra
De repente, sôfregos olhos o fitaram
Este era um olhar agoniado que se prendia ao dele, quase que suplicando algum tipo de salvação, uma redenção a qual nem ele sabia onde encontrar, um olhar ancião!
Então a pergunta: “Será que este olhar já fora inteligente como o meu?”
O olhar vago, no entanto, parece ser o mais interessante:
Não olhar pra canto algum, pois olhando a um ponto, a uma direção, estamos limitando, não a visão, mas a própria imagem
Fita, agora, um imbecil
O imbecil é aquele que tem consciência de sua imbecilidade
É diferente do ignorante...
Um fanático!
Um fanático em qualquer esfera é quase sempre um imbecil
Mas afinal, o que é inteligência?
A inteligência é um trabalho de exclusão, como fazemos para responder uma questão de múltipla escolha da qual não sabemos a resposta
Vamos excluindo as opções falsas até sobrar somente uma
Agora, será que esta opção que restou é verdadeira?
Nunca saberemos
O que isso significa?
Que nunca saberemos o que realmente é inteligência
Pois a Verdade é simplesmente uma questão de escolha
Alguns são mais rigorosos e céticos, outros nem tanto, escolhem a sua verdade, mesmo que falsa

Seu olhar, agora, parecia tão igual...
De uma cor tão pastel...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Da Arte Como Modelo

- Nossa! Que mal cheiro é esse? Foi você, Pedro? – e com um sorriso amarelecido e uma sonífera fala, reponde: - Sim, pior que sim. Desculpe, cara. – Meu Deus, o que você andou comendo?! – Só porcaria... – então, para selar a prosa de forma apaziguada, sugere: - Chega mais, Pedro. Venha ver meu novo poema:

"Seus olhos brilham como o mar
E o céu calou-se num encanto
Traduz-me o lindo verbo amar
Por onde passam os meus anos..."

- imediatamente após a estrofe, Pedro interrompe: - Nossa! Que poema é esse?! O que você anda lendo?! – e com um arrastado olhar e uma submissa fala, confessa: - Só porcaria...

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Relógio do Largo da Carioca

1909. A referência viva que geralmente temos mais em comum é a dos avós. Não, eles não  eram nascidos. Em tal ano, seus pais – nossos bisavós – talvez ainda nem se conhecessem. Pois foi neste nônico ano que inauguraram o relógio do Largo da Carioca. Nunca estudei sobre a história dele, de quem o idealizou, enfim, até por que provavelmente o motivo deve ter sido trivialmente político, sem tirar os méritos de sua clássica beleza, e se sei da data, ou melhor, do ano de fundamento, é devido simplesmente ao seu brasão de ferro central.
Assim como qualquer relógio a lá Big Ben, de configuração europeísta, este também possui quatro faces. O curioso é que as quatro estão paradas. Sei que a preservação histórica em nosso país é deficiente, disso todos nós sabemos, entretanto chamo a atenção para o subjetivo. As quatro faces daquele cubo marcam horas distintas. Pelo o que sei e  lembro, não é de hoje que este relógio não funciona. Qual será o ano que cada face parou?  Qual mês, qual dia? Provavelmente em datas diferentes. Os ponteiros da face norte indicam 6:45; Da sul: 8:55; Oeste: 22:40; Leste: 18:05. Será que por terem parado de funcionar, aqueles relógios pararam de acompanhar o tempo? Ora, todos os dias, cada um dos quatro durante sessenta segundos fornecem a hora correta. Norte e Sul na claridade, Leste e Oeste à noite. Os quatro têm seu ponto de referência astronômico fixo, não precisam durante vinte e três horas e cinqüenta e nove minutos tic-taquearem para estarem corretos. Em 2009 ganhou status de patrimônio histórico centenário. Tecnicamente já perdeu sua função primária que era servir a população com o horário exato e mesmo que o recuperem, ninguém mais sente a necessidade de guiar-se por um relógio público, salvo uma ou outra ocasionalidade. Todavia ele representa mais que um demonstrador de horário ou um patrimônio histórico para recobrarmos romanticamente há uma época. O relógio do Largo da Carioca é um compositor de temporalidades: De luas, de sóis, de chuvas. De filosofias políticas, sociais ou puramente pessoais (a minha inclusive). De oxigênios, puros ou poluídos. De sons cantados, assobiados, berrados, mecanizados ou de origem mais naturais. De matemáticas, físicas e químicas. E mesmo se o tempo for um equívoco, essa pequena torre de bronze continuará sendo um lugar comum nos diversos espaços de quem por ali passar.

terça-feira, 13 de março de 2012

Uvas

A pracinha que circundava sua casa estava soturna demais naquela terça. Geralmente sempre havia algum aposentado, alguém vendendo álcool, ou mesmo desconhecidos casais sorrindo ao banco. Da chuva só restara o cheiro, não o de terra, mas o de asfalto molhado. O asfalto molhado exala curiosamente - e esta é uma área que de tão pouco estudada é oculta - um forte cheiro, mas a verdade é que não tem cheiro definível algum, nem de asfalto propriamente dito. Otorrinolaringologista. Vinte e duas letras, meu deus! Qual será o médico que escreverá o primeiro tratado de olfatologia? Ciência inexistente. Cabe, então, aos poetas definirem os cheiros. E olhem aí mais uma função desses médicos da sensibilidade. Pensando bem, poeta bom não é o que cura, mas o que deixa doente. Enfim, era uma terça bem atípica, afinal o dia já tinha começado estranho com o sumiço de seu guarda-chuva, tinha ótima memória e antes de sair de casa naquele dia chuvoso, ainda lembrava com precisão de onde e quando havia deixado seu objeto: no cabide mais alto do armário na noite retrasada. Quando o fortíssimo toró caiu, cerca de quinze minutos antes de sair do trabalho, percebeu que não teria jeito, teria de gastar sua última nota de cinco para comprar um guarda-chuva novo com os ambulantes que a esta altura iam garantindo o mês num falatório que conseguia ser ouvido mesmo com o “chuá” ensurdecedor do temporal pelas ruas. – Sombrinha é cinco, “familião” é dez! – gritavam os proliferados vendedores.  Saltando do ônibus, todo ensopado obviamente, pois a sombrinha entortara ainda no caminho até o ponto devido à fraca, porém suficiente ventania, percebera que mesmo vazia à primeira vista, da praça vinha um sôfrego gemido. Esperou um fusca passar à rua dianteira e atravessou, tanto para averiguar como para obrigatoriamente chegar em casa. Era um homem, aparentemente com uns vinte e poucos anos. Trajava uma roupa a la française bem típica de brechós de bom gosto. Sua barba irregular o definiria – com toda certeza com uma boa dose de preconceito que quase sempre realmente traduzia este tipo de jovem – como um bon vivant (aproveitando novamente o francês), muito provavelmente mais um destes rapazes sustentados por pais de certa estabilidade, e isto se confirmaria, pois o homem estava com uma garrafa de um bom vinho que não condizia com as poses comuns de simples trabalhadores. Se o vinho também era francês? Sim, claro. Devia ser um músico ou poeta de bar. O sôfrego gemido, agora mais audível, era na verdade um arrastado choro, daqueles que arranham a garganta, não tão sonoros, mais internos. Este tipo de choro provavelmente é o pior. Aproximou-se e perguntou ao rapaz: - O que há rapaz, por que choras? - o homem deu uma trégua nos soluços e virando lentamente a cabeça perguntou: - O senhor teria um dinheiro para eu comprar mais um vinho? Me submeto até a um péssimo vinho, preciso me embriagar e minhas moedas acabaram. – respondeu: - Meu, caro. Vades para a casa, és jovem e seus pais devem estar muito preocupados e além do mais, já bebeis demais, não acha? – dizer a um bêbado a hora de parar, e, principalmente finalizando a orientação com uma pergunta só aumenta sua sede por álcool, mesmo assim, curiosamente ao início da oração o jovem respondeu com uma concessiva pergunta: - Você acha? – mas logo justificou-se, pois se tratava de ironia – Eu aparento ser mais jovem, senhor. Tenho vinte e seis anos, se estou chorando tenho fortes motivos, sou um homem forte. – interrompeu – Mas afinal, qual é o motivo de seu lamento? sem mais delongas replicou: - É que sou escritor. Como podes ver até pela minha vestimenta , sou um homem culto. O fato é que perdi totalmente minha inspiração. Já não escrevo algo relevante há meses. Nem um curto conto, sequer. Por isso exagerei na bebida. Sempre gostei de beber meu vinho enquanto escrevo. Mas nem ele está me ajudando a destravar. Noutros tempos, minha literatura podia ser medida pelos meus vinhos. Se tomava uma garrafa na semana: A produção ia bem; Com duas: Era sinal mais de quantidade do que qualidade; Se não bebia: A produção ocorria mais lentamente; Agora, se bebia três ou mais, era péssimo sinal: Ou nada se compunha ou ocorria este fenômeno que me encontro, o da escassez total. Entende agora o motivo de meu choro, homem? – Ah, sim, claro. Compreendo, amigo. – que homem lamentável, pensou – Mas sobre o quê, escrevias? – A questão não é sobre o que eu escrevia, e sim, sobre o que vou escrever e se o senhor não me dará uns trocados – aumentou a voz – pode se retirar. Perdoe-me a grosseria, mas não estou nos melhores dias, entende? – Lamento, mas não posso te ajudar nesse sentido, não tenho dinheiro sobrando e além do mais, não gosto de grosserias, ainda mais vindas de um homem que se diz culto, mas que se mostrou um mal-agradecido. – Vá embora, velhaco! Me deixe! – desta vez gritou com rústicas sobrancelhas – Vá embora você. Esta praça é caminho de minha casa, oras. Eu não estava vagueando pelas ruas durante o dia, rapaz. Eu estava trabalhando! – Alors avaler ce Château! – tacando a vazia garrafa do bom vinho na direção dele. Conseguiu desviar numa rápida corrida e a garrafa espatifou-se próximo à videira do jardim vizinho – Ei, jovem! – exclamou já perto da porta de casa e já longe do rapaz, parecendo não guardar rancor da tentativa de agressão – Viu o que fez? Acabou de tacar uma garrafa vazia de um bom vinho sobre a videira. Aí está. Escreva sobre o que entende bem: Escreva sobre vinhos!     

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sequestro

Um velho e conhecido poeta, sabendo de sua incurável doença, decide confeccionar um abaixo-assinado com as assinaturas de seus numerosos admiradores para entregar à Deus e com isso conseguir mais alguns anos de vida, pois nele ainda pulsa grande veia poética para a publicação de mais alguns ótimos livros. Consegue, então, a incrível marca de um milhão de assinaturas.
Deita-se abraçado ao precioso documento e adormece. Procura Deus em sua enorme sala e entrega o extenso papiro. Reitera o seu desejo e de seus milhões de admiradores, ajoelha-se e suplica por mais alguns poucos anos de vida, mesmo que seja único. Recita um lindo poema de piedade que fez especialmente para o encontro, um dos mais belos que já compunha, expressando o seu amor pela vida, pela arte, pela poesia.
Deus espantado com tamanho talento e número de leitores de tal homem, dá o veredicto: “- Meu filho, há anos que não ouço tão nobres versos, devo te confessar, também sou poeta, mas perdi minha inspiração, foram anos de desilusões, já estava na hora de aparecer um poeta de verdade aqui, preciso de ti.” E o poeta não mais acordou.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Exposição

Fui a uma exposição de arte
De um pintor chamado: Deus
Suas telas eram espelhos emoldurados